No Brasil, o Dia Internacional da Mulher é sempre uma festa
de horrores, na minha humilde opinião. Não se celebra a data com alegria, com
amor, tampouco o foco se dispõe em ressaltar as conquistas da mulher ao longo
dos anos – e quando o faz, a pincelada é tão enxuta que chega dá dó. Mas este
ano, em especial, o foco ficou totalmente em usar, da forma mais baixa possÃvel, este
dia para atacar o governo que há pouco se encontra no poder.
Este porém, não é o motivo desta reflexão, afinal não quero
fazer o que, pra mim, é razão de crÃtica. Minha análise é voltada para duas
vertentes: a incrÃvel façanha de ousarmos comemorar o dia da mulher em um dos
paÃses onde mais matam mulheres no mundo (mais especificamente o 5º, segundo o
Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos). Mais do que isso,
ousamos ainda jogar isso nas costas de nós mesmas, quando na realidade esta conta
não nos pertence. Mas isto já é clichê, é de conhecimento geral e virou algo
tão comum que já não é mais tão ressaltado nas reflexões sobre esse dia; e a
capacidade de falarmos muito sobre luta e, na prática, ainda fazermos tão pouco
como sociedade.
Lutar para que a violência pare, para que diminuam os feminicÃdios
(a começar por enxergar que eles realmente existem e que hoje, mais de 50% dos
crimes cometidos contra as mulheres são SIM com este qualificador), para que
tenhamos direitos iguais (perante a lei, pois biologicamente NÃO somos iguais
aos homens e insistir nesta premissa é de uma burrice sem fim) é algo que não
deve se restringir a um dia do ano. E, principalmente, não deve excluir nossos
pais, irmãos, maridos só porque eles são homens. Dizer que “não queremos
flores, queremos respeito”, honestamente é ridÃculo porque um não exclui o
outro e nada nos impede de termos os dois. Pelo contrário. Fazer com que um
seja fator excludente de outro nos mantém na mesma espiral que nos fez chegar
onde estamos. Merecemos flores, merecemos respeito, merecemos o mundo. E
merecemos homens que lutem por isso ao nosso lado.
Mas mais do que homens, merecemos uma sociedade que esteja
em sintonia com esta luta e que pare, de uma vez por todas, de nos colocar
sempre em condição de inferioridade, de vitimização porque isto não ajuda em
nada à causa e corrobora, e muito, para que este verdadeiro massacre contra o “sexo
frágil” continue. Merecemos ainda que desde o berço, eduquemos nossos meninos a
nos dar flores, a abrir a porta do carro (sim, porque não? É uma questão de
cavalheirismo e não de superioridade), a nos respeitar e respeitarem nossas
escolhas, inclusive quando elas resultam em um grande e sonoro “não”.
Só diminuiremos os feminicÃdios quando diminuirmos também nossa visão de inferioridade, de vÃtima pré feita. Afinal também podemos - e devemos - ser protagonistas das nossas vidas. Se o mundo lá fora está perigoso pra nós, que saibamos nos defender dele e nele. Sem melindres, sem vitimização. Outro dia, em BrasÃlia, uma moça que lutava muay thai há oito anos rendeu, com um mata leão, um bandido que estava tentando assaltar a concessionária em que ela trabalhava e ficou com ele até a polÃcia chegar. Esses casos são exceções? Sim. Mas porque não tentarmos transformá-los em regra ao invés de algo esporádico? É arriscado, é perigoso mas honestamente, quando não foi? Isto é resistência. Violência não resolve o problema mas vitimização tampouco. Somos muito mais fortes do que pensamos, só fomos educadas da maneira errada por tempo demais. Que venham tempos de mudanças.
Que consigamos entender que este dia não se resume a um
evento isolado e que, no momento da luta também possamos nos dar ao luxo de
comemorarmos – com flores, abraços, carinho - nossa existência.
